À Conversa Com: Miguel Rodrigues

02-10-2020

Miguel Rodrigues é presidente da Federação do Porto da Juventude Socialista. Descobre mais:


Em dezembro de 2019 foste candidato à Federação do Porto com um lema pertinente. Quais os pilares que para ti mais precisavam de "Coragem Para Mudar"?

Entendo que o mais urgente mudar na JS era a nossa forma de encarar os problemas dos jovens que não militam. Não porque não os entendamos, porque um militante da JS nem tem a vida mais facilitada no seu trabalho ou nos seus estudos do que alguém que não o faz, mas porque temos a responsabilidade de solucionar esses problemas.

Senti - e ainda sinto - o quão pouca fé os mais novos têm na sua capacidade de mudar o mundo, o que contrasta sempre com a fé que eu tenho neles para o fazerem. Aquilo a que muitas vezes somos associados, com palavras mais ou menos deselegantes, mas que significam o mesmo - carreirismo e seguidismo - era aquilo que era preciso mudar. Não é por acaso que a primeira coisa que preparámos neste mandato foi a elaboração de um Compromisso de Ética - a ser votado este mês - que explicite claramente o compromisso para com uma política limpa e a nossa rejeição absoluta das práticas da corrupção.

Era preciso deixar para trás uma visão tão institucionalizada da JS e do PS, sob pena de perdermos quem está lá fora para ganhar lugares cá dentro, ainda que com prejuízo pessoal. Temos construído uma comunicação mais arrojada, mais fresca e mais próxima. Temos construído propostas a serem levadas ao nível local em que os mais novos reconheçam os seus problemas, do ambiente aos direitos dos animais. Em poucos meses, tornámo-nos uma geração mais ativista e desde a marcha do Dia da Mulher, à Marcha do Orgulho do Porto, à Marcha Climática Estudantil, às manifestações anti-racistas e anti-fascistas, nunca deixámos de nos manifestar, claro está, em segurança. Era preciso tirar o ativismo do armário e trazer a JS para a rua e é isso que estamos a fazer.


De que forma tens sentido o impacto das propostas de mudança? 

Em geral, de forma positiva. 

Agora que nos aproximamos dum novo ciclo nacional na JS, sinto que as nossas propostas para o Trabalho e para a Coesão Territorial têm uma repercussão nacional que poucas estruturas têm. O nosso trabalho sobre a Regionalização tem tido eco dentro e fora do PS. Noto que, a nível nacional, há hoje outra atenção dedicada ao tema, que tanto é válido para o nosso distrito - que é talvez o mais dicotómico do país - como é válido para tantas regiões do interior e fronteiriças que se têm juntado a esta pulsão nacional. Hoje há uma pressão nacional para que a JS se torne abertamente regionalista e essa não é uma vitória do Porto, é uma vitória de todos os que estão fartos do centralismo português. Mas como em todos os movimentos, há sempre um louco que se chega à frente primeiro e tenho muito orgulho em que tenhamos sido nós.

É aliás o próprio partido que o reconhece. Foram muitos os dirigentes do PS que falaram da Regionalização como um processo a avançar, com ou sem vontade política do Presidente da República. E não tenho dúvidas de que será também a JS a marcar a agenda do futuro.


Que prioridades queres ver cumpridas até ao fim deste ano e que outras projeções tens até ao fim do teu mandato?

Até ao fim do ano quero ver uma discussão madura sobre o ambiente. Quero que a nossa JS dê um salto qualitativo de 'somos ambientalistas' para 'somos ambientalistas, defendemos isto e rejeitamos aquilo'. Acho que a discussão sobre o ambiente é tão séria e tão importante que não pode ser superficial. Temos de alertar para a impossibilidade de mantermos os nossos modelos económicos, temos de gritar bem alto que a ambição dos poucos que precisam do capitalismo selvagem e sem regras não se sobreporá nunca às muitas gerações do futuro que precisam do planeta, mas de forma séria e sem hipocrisia. Sem alinhar no discurso redondo de quem quer carros que não poluam, mas falta à chamada para discutir o lítio, o hidrogénio e as outras soluções que temos. Pode até ser sexy dizer 'Não queremos lítio porque a extração de lítio polui'. Mas estes são os mesmo que às segundas, quartas e sextas exigem aos governos e às autarquias soluções de mobilidade suave que se fazem com... lítio. O resultado de querermos purismo ambiental é fazer com que estes recursos sejam produzidos na Ásia ou em África sem regras, devastando ecossistemas inteiros. Temos uma notícia para eles: é que não vale a pena atingir a neutralidade carbónica em Portugal se falharmos todas as metas em toda a Ásia! Queremos que Portugal lidere pelo exemplo e queremos também discutir aqueles que são os parentes pobres do ambientalismo 'mainstream': a nossa biodiversidade e os nossos cursos de água.

Em 2021, acho que temos que abanar ainda mais a estrutura. Entendo que temos ainda um grave défice de participação feminina ativa, apesar das nossas listas serem absolutamente paritárias já neste mandato. Precisamos de trabalhar com peritos e com as mulheres na nossa estrutura para, de forma série e sem qualquer condescendência, criarmos mais lideranças femininas, no distrito e no país.

Em segundo lugar, acho que temos de fortalecer as nossas concelhias e trabalhar mais a implantação da JS junto das escolas, das coletividades e do poder local. Isto faz-se descentralizando atividade, disponibilizando os recursos distritais para apoiar as concelhias e estabelecendo uma comunicação de tal forma profissional que chegue a todos os jovens do Porto.

Obviamente que tencionamos dedicar-nos a mais causas e tenciono que sejam as causas de sempre: a educação, a habitação, o trabalho, a saúde... porque essas, sendo causas velhas, são infelizmente sempre inconseguidas.

Mas não será surpresa que o grande foco da JS em 2021 serão as eleições autárquicas. Como sempre, tentaremos fazer um quadro reivindicativo forte que permita aos nossos protagonistas serem ativos na definição das políticas nos seus concelhos. Parece abstrato dito desta forma, portanto mais vale dizê-lo de forma clara: não estamos cá para ocupar lugares pelo propósito de os ocupar, estamos aqui para apontar rumos novo na educação, no trabalho, na economia, no ambiente e em tudo o que nos diz respeito e, se não fizermos pelo menos isso, podemos pendurar as chuteiras e ir embora.

Mas não falharemos. Muitas vezes acusam a JS de ser apenas uma escola do PS, uma escola de políticos. E se é profundamente falso que a JS seja apenas uma escola do PS, mas não há dúvida nenhuma de que a JS é a melhor escola de política que o país tem. E o Porto é o distrito que melhor o representa.